O teatro de Lutero – uma encenação podre e bem-sucedida

23/10/2014 12:45

 

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A imagem acima foi retirada da página Escolástica da Depressão.

“A característica do herético, isto é, desde que tem uma opinião particular, é a de se prender a seus próprios pensamentos”.

Bossuet (bispo e teólogo francês)

Com esse pensamento retornamos, mais uma vez, para continuar a saga das peripécias do mad monk.

Em outubro de 1520, os escritos de Lutero foram queimados em diversas cidades belgas. Terminado o prazo de retratação, ele queima um exemplar da bula papal Exsurge Domine – documento que exigia que se retratasse de suas heresias. O detalhe é que ele fez isso escondendo-se atrás dos alunos da Universidade de Wittenberg. Eis mais um rompante de coragem e destemor (estou no modo irônico), os quais só ele mesmo seria capaz.

O monge maluco fez desse gesto simbólico um auto de fé, em que o herege queimado seria o próprio Papa, Leão X. Como podemos ver, estudante universitário burro para ser usado como bucha de canhão não é uma invenção moderna. Nesse dia mesmo da queima da bula de excomunhão, Lutero aproveitou, já que estava mesmo com a mão na massa, para queimar uns livros que ele não entendeu. Tudo em nome da tolerância!

Lutero foi convocado a comparecer diante da Dieta de Worms, onde estaria o próprio Imperador – Carlos V – em pessoa. O renomado teólogo Von der Ecken era o acusador principal do monge maluco. Pra quem não sabe, a “Dieta” era uma reunião de lideranças; era uma espécie de congresso.

No caminho de Worms, Lutero e seu cordão de puxa-sacos foram espalhando seu veneno pelo caminho. No domingo de Páscoa de 1521, ele pregou na cidade Erfurt, apesar da proibição do Papa. Nessa feita, ocorreu uma ameaça de desabamento. E Lutero mencionou mais uma vez seu grande mestre e inspiração: o diabo.

– Não temeis, não há perigo! Eis como o diabo procura impedir que eu pregue o Evangelho, mas não conseguirá!

Cara… Como o diabo era presente na vida desse sujeito! Aí vocês entendem a origem da obsessão de muitos protestantes com a figura do canho.

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E Lutero chegou a Worms! Era 17 de abril de 1521. Um análise superficial do seu séquito já diz um bocado sobre o espírito que animava e ainda anima as heresias dos protestantes: cem cavalheiros, a fina flor da aristocracia alemã, a proteger o seu herói, que ainda envergava o hábito monástico e fazia cara de humilde vítima. Não preciso dizer mais nada. Depois de mais de mil anos, parecia que Átila havia retornado a Worms, vestindo uma roupa diferente.

Na Dieta, foi dada ao monge a oportunidade de se retratar, e ele pediu um período de 24 horas para pensar a respeito. No dia seguinte, por volta das seis da tarde, Lutero se apresentou novamente em frente da assembleia apenas para iniciar a longa tradição dos protestantes de falar: “me mostra isso na “bibra”.

Aqui cabe um parêntese. As coisas foram conduzidas com uma certa inabilidade. O Papa Leão X não deu a Lutero muita importância, mais preocupado com assuntos seculares emergenciais. E o Imperador Carlos V via as coisas por um viés político. Ambos não enxergaram o que realmente estava em jogo: as almas da civilização cristã ocidental.

Depois que Lutero decidiu não se retratar, o Imperador Carlos V deu por encerrada aquela sessão da Dieta e se retirou. Os defensores de Lutero quase fizeram quadradinho de oito de tão felizes e os emissários papais se limitaram a ficar vociferando: “Queimem o herege! Queimem o herege!”. Apesar desse ato de suposta macheza, Lutero depois confessou que em momento algum pretendeu se retratar, o que nos leva a crer que seu pedido para meditar sobre o assunto, mais uma vez, não passou de teatrinho para otários (olha aí outra tradição protestante).

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Só pra quem acha que Lutero foi macho pacas mesmo assim, vamos salientar que, durante a Dieta de Worms, o mad monk estava protegido por um salvo conduto dado pelo próprio imperador, que cumpriu a sua palavra e não tocou num fio de cabelo sequer de Lutero, e muito menos qualquer membro do clero fez algo para prejudicá-lo.

Em 26 de abril, a macheza do cabra acabou. Lutero “sartô de banda” de Worms, uma vez que o salvo conduto que o Imperador havia lhe concedido expiraria em três semanas e ele precisava, destemidamente, procurar um lugar onde se enfiar, já que era intenção do Imperador transformá-lo em um fora da Lei e o colocar em cana. Proibido de pregar em público, Lutero desenvolveu sua própria “tática de guerrilha”, bem parecida com a de pregadores de trem, e continuou seu trabalho demoníaco pelas alamedas das cidades alemãs. Falou em Mohra, em Eisenach e em outras cidades menos cotadas, sempre se valendo do seu salvo conduto para não ser preso.

Só que isso não ia durar para sempre. Os puxa-sacos de plantão tiveram uma ideia brilhante, que seria executada pelos homens do duque Frederico, o Sábio (queria saber porque deram esse epíteto para o tal): forjar o sequestro do mad monk e  o levar sob custódia para o castelo de Wartburg (o que, por si só, é um sacrilégio, visto que esse castelo foi morada de Santa Isabel da Hungria). A ideia era dar a impressão de que estavam prendendo Lutero, mas na verdade estavam lhe dando proteção e boa vida.

ui_luteroEsse falso sequestro foi o primeiro golpe dos príncipes alemães contra o Papa e contra o Imperador, que os deixou famosos como atores da Reforma Protestante. Não fosse a manobra de Frederico, Lutero teria caído e muitos exploradores da fé que estão hoje por aí teriam que procurar um trabalho honesto.

“Preso” num cartão postal, Lutero só aí sentiu-se seguro para, enfim, largar o hábito. Passou a deixar crescer tanto o cabelo quanto a barba, arrumou uns panos “maneiros”, uma espada e uma corrente de ouro enorme no pescoço. Passou até a usar um pseudônimo – Jorge. Escondido, bem alimentado, passou a dedicar seu tempo à nobre arte protestante de xingar o papa, chamando-o, dentre outras coisas de “comilão”, “bêbado” e “servidor do demônio”.

Em 26 de maio, saiu o Édito de Worms em que o Imperador concita aos cidadãos do Império, sob pena de morte, a não dar abrigo a Lutero. Enquanto isso, em Wartburg, Lutero batia altos papos com o canho. Segundo ele, tinha o diabo em todo canto do castelo. Até dentro de um saco de avelãs o diabo se metia. Lutero agora era presa do ócio, da preguiça, da luxúria, e chafurdou na lama na antiga residência de Santa Isabel.

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