As armas contra a obsessão

12/03/2014 10:43

A obsessão demoníaca acontece em situações bastante específicas, porém, ela pode ser tomada como verdadeira a partir de comportamentos e desordens inerentes à própria pessoa. Por isso, é indispensável a ajuda de um bom sacerdote ou diretor espiritual que seja capaz de enxergar as nuances e apontar as soluções, seja para procurar ajuda psiquiátrica adequada, seja para encaminhá-la a um exorcista autorizado.

 

    As armas contra a obsessão

Na aula passada o tema abordado foi a obsessão e suas formas. Nesta, será a terapia para ela. Em primeiro lugar, necessário se faz recordar o seu diagnóstico, ou seja, de que na esmagadora maioria dos casos a obsessão se dá, por permissão divina, para pessoas em elevado grau de santidade. Assim sendo, preliminarmente, o diretor espiritual dessa pessoa deve observar qual o perfil espiritual dela. Se existirem claros sinais de santidade ou de que ela se encontra num caminho de santidade, de fato, poderá ser uma obsessão.
 
Um segundo ponto é distinguir a obsessão da tentação. Para tanto, é salutar recordar que a tentação nem sempre é clara, no mais das vezes ela se confunde com as paixões pessoais, com o mundo, com a carne, até mesmo com o diabo, tudo junto. Os fatores não se excluem. Já a obsessão é claramente uma ação demoníaca. Além disso, deve ser levado em conta o perfil psicológico, até mesmo psiquiátrico da pessoa. Se existir um histórico de doença mental, a possibilidade de obsessão pode ser excluída, o que não significa que não haja ali uma ação demoníaca, mas não necessariamente uma obsessão.
 
As duas doenças psiquiátricas que devem ser analisadas no caso de obsessão, possessão e etc, são a histeria e a psicose. A histeria é uma tendência da pessoa a viver mais a partir do que sente do que daquilo que realmente sabe e conhece, ou seja, ela tende a amparar sua vida no sentimento e não na realidade mesma. Atualmente esse comportamento pode ser observado nos revolucionáios de esquerda, quando, com sua ideologia, persegue os oponentes, implanta coisas contrárias à moral e a Deus. Mesmo assim, mesmo diante de todo mal que eles mesmos promovem, sentem-se as vítimas, perseguidos e oprimidos, ou seja, vivem fora da realidade.
 
O histérico, portanto, vive a partir do sentimentos, assim, uma pessoa que se sinta perseguida pelo demônio realmente crê na perseguição. Não é fingimento. Ele é o primeiro a ser convencido. A histeria deve ser tratada com a retirada da pessoa do vitimismo. Este comportamento vitimista nada mais é do que uma postura idolátrica de si mesma. A pessoa tem dificuldade em aceitar que não é o centro do mundo. E mais, se não consegue ser o centro do mundo de forma positiva, se contenta em ser de forma negativa, vitimizando-se. A ajuda do diretor espiritual deve consistir em tirar a pessoa dessa posição, geralmente trabalhando o que a levou a tornar-se assim (um acontecimento no passado, por exemplo).
 
Uma outra doença que deve ser atentamente observada é a psicose. Nela, a pessoa sofre realmente de alucinações, ou seja, vê coisas que não existem. Existem graus diferenciados dessa doença, além disso, os seus sintomas podem se misturar com outros, de diversas naturezas. Logo, o quadro psicótico pode se mostrar bastante parecido com o da obsessão dos sentidos, em que a pessoa sente cheiros, vê coisas, tem sensações bastante nítidas. A pergunta é: como saber se se trata de histeria, psicose ou se é realmente uma obsessão ou possessão?
 
A primeira consideração a ser feita é que mesmo havendo um quadro psiquiátrico não é possível descartar, logo de início, uma ação demoníaca. O que pode existir é uma situação de tentação, potenciado pelo quadro psiquiátrico da pessoa, o que pode se parecer muito com a obsessão. Existe uma ação demoníaca, mas ela parece mais intensa naquela pessoa não por ser uma permissão divina e ela estar num elevado grau de santidade, mas sim porque ela possui um quadro psiquiátrico no qual se apresentam as características e as tentações demoníacas que, em outras pessoas seriam leves, nelas são enormes. Para ilustrar, podemos nos recordar do exemplo dado na aula anterior do soco numa ferida aberta.
 
Assim, não se pode excluir que em quadros psiquiátricos as pessoas apresentem também situações em que estão, de fato, padecendo sob tentações demoníacas, nesse caso, é possível assimilar as tentações potenciadas pelo quadro psiquiátrico às obsessões, pois os efeitos são similares. A diferença é que, em geral, essas pessoas não estão num elevado grau de santidade. Diante disso, os diretores espirituais devem imbutir na pessoa uma imensa confiança na misericórdia de Deus. Caso a pessoa esteja sendo tormentada em obsessões demoníacas deve tentar retirar disso um bem maior, o consolo deve vir de olhar os sofrimentos como passos importantes para o crescimento na virtude e no amor.
 
Por outro lado, se houver realmente um quadro psiquiátrico, ela deve ser imediatamente encaminhada para o tratamento médico adequado. Contudo, não se devem excluir os remédios espirituais, pois corpo e espírito não são situações excludentes. Os exorcistas costumam dizer que, em muitos casos, a cura da pessoa se dá justamente ao se aliar o tratamento médico ao exorcismo. O Padre Gabriele Amorth, famoso exorcista de Roma, já aposentado, em sua obra "Exorcistas e Psiquiatras", publicado no Brasil pela Editora Palavra e Prece, apresenta uma longa entrevista concedida por ele a um grupo de psiquiatras, dentre eles muito ateus e não-crentes, na qual diz que é necessário considerar que a Igreja, em sua prudência e em seu conhecimento, não exclui a ciência da psiquiatria, em que pesem muitas pessoas movidas pela soberba rejeitam logo de início o uso de medicamentos psiquátricos. Ele adverte também que, para algumas pessoas, é muito mais fácil crer que está sendo perseguida pelo demônio que aceitar que possua um problema que deve ser tratado, pois isto significa uma espécie de humilhação.
 
O cérebro é o órgão da alma. Por assim dizer, a alma humana não se manifesta em sua nobreza, em sua grandeza, se o cérebro não cooperar. É preciso cuidar dele para que a vida espiritual também evolua adequadamente. Um justo equilíbrio é o adequado. Não é possível esquecer que todos precisam cuidar desse "burrinho", que é corpo, como disse São Francisco de Assis. Desse modo, qualquer pessoa pode precisar de um ansiolítico, de um medicamento mais forte, que deve ser receitado por um bom profissonal, um que esteja disposto a ouvir, a fazer um diagnóstico e a prescrever o remédio adequado.
 
Dito isso, um terceiro ponto deve ser esclarecido: o uso dos sacramentais. Água benta, medalhas de São Bento, medalhas de Nossa Senhora, sal e água exorcizados e bentos, todos eles ajudam no combate à obsessão e à tentação. Mas, sobretudo, manter os pés firmados no chão por meio da fé e da Palavra de Deus.
 
O quarto ponto diz respeito aos sacerdotes, já que eles podem usar alguns exorcismo menores, de forma privada. Se a pessoa tem um quadro psiquiátrico é possível usar a forma da oração em latim, se maneira discreta, para não alarmá-la. Uma oração adequada é o Pequeno Exorcismo publicado pelo Papa Leão XIII. Ora, alguns podem dizer que essa oração foi proibida, mas o Código de Direito Canônico diz, em seu cânon 1172, diz que "ninguém pode legitimamente fazer exorcismo em possessos, a não ser que tenha obtido licença peculiar e expressa do ordinário local". Como não se está falando de possessão, mas sim de obsessão ou de tentação severa, não há óbice ao seu uso.
 
Além disso, a proibição é interpretada tradicionalmente como sendo para os exorcismos solenes. O Padre Antonio Royo Marin, em sua obra Teologia de la perfeccion cristiana, recomenda no caso das obsessões que os diretores lancem mão de "exorcismos previstos no ritual romano ou outras fórmulas aprovadas pela Igreja, porém sempre em privado". Em seguida, remete o leitor à nota de rodapé nº 14, na qual diz que para exorcismos solenes é necessária a autorização do ordinário local, conforme o Código de Direito Canônico.
 
Trata-se, portanto, de oração de libertação. E, por mais que hajam explicações até mesmos de alguns dicastérios da Cúria romana dizendo que não se pode, de forma alguma, usar o exorcismo de Leão XIII, é necessário lembrar que esses dicastérios não possuem valor legislativo. Assim, quando eles mandam cartas para os bispos do mundo explicando algum cânon, eles não estão legislando, mas tão somente explicando, e a explicação só vale se estiver de acordo com a lei canônica. Para adquirir força de lei seria preciso uma aprovação específica do Papa e, que nesse caso não existe, ou seja, não há nada que limite o uso do Pequeno Exorcismo do Papa Leão XIII privadamente. Ademais, o texto dessa oração prevê a alternativa para padres e por leigos.
 
Ainda a respeito do exorcismo, qualquer sacerdote realiza inúmeros ao longo de sua vida sacerdotal. Por exemplo, durante o batismo, no uso do óleo do catecumeno, no ritual de iniciação de adultos, nos chamados escrutínios, e assim por diante. São todos exorcismos menores, não solenes e aprovados pela Igreja. O que não se pode é fazer exorcismos solenes, públicos, de uma forma que transgrida a lei canônica já citada. Isso significa que exorcismos para não-possessos, podem ser feitos por padres, desde que privadamente.
 
Por fim, não se deve excluir o fato de que realmente pode estar ocorrendo um caso de possessão. Caso o sacerdote faça a pequena oração de exorcismo numa pessoa que apresenta sinais de forte tentação ou obsessão, e ela saia de si, perdendo os sentidos, convulsionando, ele deve interpretar esses pequenos sinais como sendo de possessão e, aí é preciso recorrer a um exorcista autorizado. O pequeno exorcismo há de servir como diagnóstico.

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